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Jornal Eletrônico da Associação Guardiã da Água

Por John Emilio Garcia Tatton

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12- As moléstias da poluição e suas causas – Jornal da USP


Imagens tridimensionais feitas na Faculdade de Medicina da USP permitirão conhecer em profundidade diversas patologias e entender melhor a distribuição espacial do risco de certas doenças na metrópole de São Paulo

Uma das dificuldades nos estudos da poluição é definir e classificar o tipo de exposição a que as pessoas estão sujeitas, dadas as diferentes condições socioeconômicas e os diversos locais de moradia e trabalho, por exemplo. Uma estação para medir poluição, colocada em determinado ponto da cidade, nem sempre consegue traduzir com fidelidade qual é a exposição dos moradores desse local à poluição, justamente devido aos diversos hábitos de locomoção e comportamentos. Outra dificuldade em estudos do tipo é determinar os efeitos crônicos da poluição, ou seja, as consequências à saúde humana conforme o período de exposição e a gravidade das condições do ar que respiramos. Seria possível, por exemplo, comprovar teorias sobre demência, efeitos hormonais e até impotência associada à exposição à poluição?

Na tentativa de responder a essas e a outras perguntas, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina (FM) da USP deverá iniciar em breve os estudos de coorte, envolvendo cerca de 80 residentes de Medicina em quatro anos de trabalho e investimentos da ordem de R$ 13 milhões. Trata-se de um projeto com diversos temas de pesquisa, que utilizará modernas técnicas de autópsia para investigar doenças.

O projeto The use of modern autopsy techniques to investigate human diseases (Modau) foi inicialmente submetido à Fapesp para constituir um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid). Reformulado, transformou-se agora num projeto temático, submetido à Fapesp em outubro de 2013, sob a coordenação do professor Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP.

O Modau é um desenvolvimento dos trabalhos realizados desde 2009 pela Plataforma de Imagem na Sala de Autópsia (Pisa) da Faculdade de Medicina da USP. Desde então, os exames post-mortem com uso de imagens vêm sendo feitos para elucidar com maior precisão os casos em que a imagem pode ser decisiva na verificação de óbitos.
Em novembro de 2012, a sala de autópsias ganhou novos investimentos e parceiros. Além da própria Fapesp e outras instituições, a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP investiu em modernos equipamentos de imagem de alta performance, através dos recursos dos Núcleos de Apoio à Pesquisa da USP. Saldiva coordena o Núcleo de Pesquisa Integrada em Autópsia e Imagenologia (Nupai).

“A experiência da Pisa, associada aos conhecimentos acumulados pelo trabalho em outros dois grandes bancos de tecidos, levou-nos a pensar num centro de imagem para investigar os fatores associados às doenças”, afirma Saldiva.

Estações de medição – A cidade de São Paulo é um laboratório privilegiado no que diz respeito aos estudos da poluição, não só pelas condições do ar da metrópole, mas também pelas informações estatísticas que podem ser acessadas a partir das 14 mil autópsias realizadas anualmente pelo Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de São Paulo, vinculado diretamente ao Hospital das Clínicas (HC) e à Faculdade de Medicina da USP.

Por conta disso, e principalmente pela experiência adquirida a partir do trabalho em dois bancos de tecido – um sobre asma fatal e outro sobre envelhecimento cerebral –, o grupo coordenado por Saldiva realizará autópsias em diversos tipos de tecidos. Segundo o professor, serão estudados tecidos de cérebro, adrenais, hipófise, tiroide, próstata, ovário, mama, útero, pulmão, coração, aorta, fígado, pâncreas e baço.

Por ser temático, o Modau contempla diversas pesquisas, das quais se destaca a Urban heath: an autopsy based approach (Metrohealth), cuja investigadora principal é a professora Lígia Vizeu Barrozo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O estudo avaliará as condições de saúde associada ao histórico de exposição à poluição do ar. O histórico de saúde e doença será composto a partir de questionários direcionados às famílias que concordarem em participar da pesquisa. Com os dados, será possível, inclusive, mapear geograficamente o risco ambiental em São Paulo, afirma Saldiva.

Dessa pesquisa derivam quatro subprojetos, voltados a estabelecer a relação da poluição com doenças inflamatórias pulmonares, com a arteriosclerose sistêmica, além das condições de saúde de tecidos como testículos e cérebro.

Segundo o professor, a pesquisa coordenada pela professora da FFLCH buscará responder inicialmente a quatro questões principais. Primeira: se a exposição ao tráfego aumenta a dose de poluição nos pulmões, o que pode ser verificado pelo acúmulo de carbono na pleura. O levantamento permitirá estimar a equivalência da exposição à poluição ao hábito de fumar. Segunda: se a deposição de carbono na pleura acelera o envelhecimento pulmonar e cardiovascular. A ideia é verificar se a exposição à poluição reproduz, em pequena escala, os mesmos efeitos do fumo. Terceira: como a poluição do ar favorece o envelhecimento cerebral. Há teorias e estudos preliminares mostrando que a exposição crônica a tabaco e poluição reduz a capacidade do cérebro, com perda de neurônios, aumentando o risco de demência e o declínio cognitivo. Quarta: se os compostos poluentes produzem alterações reprodutivas ou afetam o equilíbrio hormonal em homens e mulheres.

Cetesb ambulante – Segundo Saldiva, as observações sobre poluição realizadas na Faculdade de Medicina já mostram que os paulistanos não fumantes possuem depósitos de carbono e fuligem impregnados nos pulmões. Surgiu então a ideia de quantificar essa dose, preferencialmente com o uso de outras medidas, por exemplo, avaliando a situação de outros tecidos, em exames post-mortem, afirma o professor. “É como se cada indivíduo fosse uma estação da Cetesb ambulante. Cada um recebe uma dose. A partir do mapeamento das residências e dos questionários aplicados às famílias, será possível constituir um mapa, mostrando como a cidade deixou marcas no corpo da pessoa”, afirma Saldiva.

Brazilian Image Autopsy Study, outra pesquisa contemplada no estudo de coorte, buscará comparar a precisão dos resultados de diversos tipos de autópsias. Segundo o projeto, há investigações mostrando uma concordância de 88% nos resultados de autópsias clínicas em relação às autópsias virtuais (por imagem, ou minimamente invasivas). Porém, há estudos mostrando uma discrepância de 30% para a causa da morte, quando combinado o laudo radiológico da ressonância magnética (MRI) e tomografia computadorizada e autópsia clínica.

Os investigadores principais – Thais Mauad, Edson Amaro Jr., Luiz Fernando Ferraz da Silva, Carlos Augusto Gonçalves Pasqualucci, todos da Faculdade de Medicina da USP – trabalham com a hipótese de que autópsias minimamente invasivas são superiores para mapear alterações cardiovasculares, hemorragias e uso indevido de dispositivos médicos. “Esse estudo é relevante num contexto de aumento das doenças crônicas. Será possível saber com maior precisão a causa da morte, a doença de base, se o tratamento foi adequado e se houve complicações do tratamento”, afirma Saldiva.

Além do estudo em profundidade de diversas doenças, o projeto irá beneficiar o ensino de alunos de graduação e de pós-graduação, propiciando também o treinamento de mão de obra qualificada para os laboratórios, segundo Saldiva.


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